A princesa da Judéia, Salomé é um daqueles personagens do
Novo testamento que tem uma passagem curta, mas com um grande valor nas encenações
da Paixão de Cristo.
Há alguns anos venho representando esse personagem em Paixão
de Cristo e sempre me incomodava essa acepção de que Salomé dançava e exigia a
seu Tio Herodes o “seu presente” devido uma maldade genuína e manipulação da
sua Mãe Herodias. Essa interpretação do texto bíblico ficou tão arraigada no
consciente coletivo que se configurou normal que uma Princesa dance para um Rei e exija
como recompensa a cabeça de um profeta numa travessa de prata.
Para a minha grande surpresa conheço um texto teatral de um
Escritor famoso que dedica e solicita que sua Peça “Salomé” seja interpretada
pela grande atriz Sarah Bernhardt. Fugindo de todas as ideias do que poderia
ser a princesa de Judéia, Oscar Wilde munindo de sua genialidade foge dos clichês
bíblicos e apresenta a sua protagonista como uma dançarina voluptuosa e capaz
de tudo para conseguir realizar os seus desejos.
"Eis Salomé, oferecida como uma flor de pétalas rubras e brancas, carregando as sugestões de poesia, sangue e pecado que lhe deu Wilde. Há momentos em que a rosa não é apenas uma invenção da beleza, mas um apelo da vida..." (Dante Costa)
Tive o
prazer de fazer leituras dramáticas deste texto e assim conhecer outra faceta
de Salomé.
Uma garota
que conhece um homem sujo, rude e asqueroso apresentado na peça como o Profeta
Iokanaan, que mesmo perante a opulência e sedução incessante de Salomé se
mantém indiferente à beleza desta.
Diante
deste personagem que poderia lhe causar repugnância, a jovem se enfeitiça de
tal maneira, que oferecida uma oportunidade cruel de vingança, ela se coloca
como vilã para desfrutar do seu “objeto” de desejo, que o acaba levando-a à loucura.
Afinal,
dizem os poetas que os apaixonados são insanos!
“- Tu não quiseste que eu beijasse a tua boca, Iokanaan. Pois vou beija-lá agora! Hei de mordê-lo com meus dentes como se morde um fruto verde. (...) Disseste-me más palavras. Disseste bem junto a mim, que eu era a lascívia e a baixeza; a mim, Salomé, filha de Herodias, princesa da Judéia!Eu estou viva e tu morto!Pertence-me a tua cabeça. Posso fazer dela o que quiser dá-la aos cães e às aves do ar. Quando os cães estiverem fartos, as aves acabarão de devorá-la...”

